A engrenagem demoníaca

Todos os dias o mesmo.
Sai de casa. Apanha o metro. Muda no Marquês para a Linha Azul. Sai em 7 Rios.
Num apartamento do nº 40 da Columbano Bordalo Pinheiro está o seu “escritório” como gosta de lhe chamar.
“É uma loja para conhecedores!”
Mal se vê da rua…
“Só cá vem quem é apreciador e que realmente quer estimar”
A Isabel é relojoeira. Ou melhor.. Reparadora de mecanismos de relógios.
Ser relojoeira implica atender clientes. Para isso contratou a Rosa.
Os seus verdadeiros clientes são os mecanismos dos relógios. A parte mais ornamentada não lhe interessava.
A assertividade daquelas engrenagens… O determinismo do seu ritmo. Saber que, dali a precisamente 1 segundo ouviria outro batimento, fazia-a expirar longamente e fechar os olhos… Em paz. Era como ficava.
Para os outros, uma valente chata.
“Mas quais outros?” – diz normalmente a Rosa quando vai às reuniões de condomínio do prédio da loja
Tinha começado a Primavera. Boa época para a reparação dos relógios.
Segundo a Isabel “As pessoas não querem perder pitada. E nada melhor do que um relógio para as disciplinar”
“Uma valente chata!” diz a Rosa
Triiimmmmm
O primeiro cliente da Primavera.
“Rosa, atendes este se faz favor?”
“Como se houvesse outra pessoa aqui para atender clientes” – murmura a Rosa
“Disseste alguma coisa?”
“Nada de nada. Apenas tossi” – justifica a Rosa
“Bom dia, é aqui que fazem reparações de relógios?”
“É sim, em que podemos ajudar?” – diz a Rosa
“Ótimo! Encontrei este relógio de bolso no sótão da minha casa. Devem ser coisas do meu Pai. Mas gostaria de o pôr a funcionar de novo”
A Rosa ainda não tinha tirado os olhos do balcão. Às vezes achava que estava a ficar intoxicada com as boas maneiras da patroa.
Como gostava de achar que era melhor do que ela, levantou a cabeça. E dá de caras com o Pedro.
E que cara! A Rosa tentou por tudo esconder que estava a ficar encarnada.

… mas vamos lá interromper esta chachada… Esta não é a história da Rosa e do Pedro… É a história da Isabel. Da Isabel e do mundo. O seu mundo.. determinístico e compassado.

Ainda com a cara vermelha, a Rosa regista o pedido, despede-se do Pedro. Entra na oficina e entrega o relógio à Isabel.
“Este tem história. Se o reparares, alguém vai ficar muito feliz”
“Como se isso me interessasse”
“Disseste alguma coisa?”
“Nada de nada. Apenas tossi” – justifica a Isabel
Mãos à obra. A Isabel mergulha naquelas engrenagens. Sente-lhes o pulso. Imagina-se pequenina a saltar entre os dentes daquelas rodas.
Tudo é metálico. Prateado. Dourado. Um leve cheiro a oficina de carros.
Isabel não desiste. Vai encontrar a solução daquele destique-taque.
Que diga-se.. é-lhe insuportável.
Leu qualquer coisa sobre isso no horóscopo de hoje.
“Para ordenar algo é preciso que haja caos. Tenha cuidado com as gripes sazonais. O seu número é o 8”
O horóscopo, era a forma de lhe ser traduzido o mundo fora dos relógios.
Relógios não… Mecanismos!
Tinha ouvido no elevador alguém defender acerrimamente a certeza de um horóscopo. Sentiu-se tão superior aquela pessoa que a ideia de o ler todos os dias seduzia-a.
“Até amanhã!”
Como assim “Até amanhã!”?. Perdeu a noção do tempo…E só a ganha quando a Rosa se despediu
Nunca tal lhe tinha acontecido. O caos do defeito das suas engrenagens tinha-lhe alterado a ordem do seu dia. A forma como estava a tentar deslindar aquele enigma, que era tão fora do normal dos outros mecanismos, fê-la viajar.. fê-la perder-se… flutuar até.
O horóscopo tinha alguma razão.
E pior:
Gostou de se perder…
“Bom dia!”
Como assim “Bom dia!”? A Rosa já tinha voltado? Mas que catano se está a passar?
“Catano!?” Nunca tinha usado tal palavra…
O desgoverno era total.
Mas gostou muito de se perder.
O dia passava. Isabel permanecia sentada sempre com aquele “maldito” relógio. Aquele relógio rebelde.. desestabilizador.. causador de motins temporais.
Gostou demasiado daquilo.
Leu o horóscopo. Repetia-se: “Para ordenar algo é preciso que haja caos”
Por um lado, havia o prazer de ordenar aquela misturada. Por outro a paz que perdera.. a ansiedade que ganhara..
“Boa noite!” “Bom dia!” “Boa noite!” “Bom dia!”…“Boa noite!”
Não sei quantos dias se tinham passado. Uma mistura de prazer.. Uma mistura de caos.. Isabel não sabia a quantas andava. Já nem percebia se gostava.
O horóscopo.. Esse continuava a dizer o mesmo: “Para ordenar algo é preciso que haja caos”
Já não aguentava.
Desistiu… Entregou o relógio à Rosa.
A Rosa.. aproveitando o facto de que o Pedro ia lá todos os dias ver se o relógio já estava pronto, enamorou-se… Enamoraram-se. Muitas vezes
“Mas não te importas que não tenha conserto?”
“Não. O que havia para arranjar, já está arranjado!” – Diz o Pedro
Rosa fechou a porta. Despediu-se da Isabel. E nem resposta houve. Só os seus passos de um lado para o outro. Passos de reflexão para tentar encontrar a ordem no caos criado.

Não. Este não tem um final feliz. A Isabel não tinha remédio. Os seus relógios sim (com exceção daquele). E era por isso que a Isabel existia

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